A noite já é alta
e voam aos sopros invisíveis as pequenas angústias
expectativas vagas refrescam os hálitos amargados pela rotina e café de máquina.
Não sei o que tem... mas tem! Este raio fervente de sol que passa na lua a pratear-se e apaziguar-se, me alimenta de vontade.
Vem Emily
vamos brincar
rodar, rolar
me dá
me afana
o anseio de amar
então me chama
o macio da cama
não nos conforta
brinquemos no chão
te puxo e empurro
te ponho torta
te desarrumo
são mãos e eiras
e beiras e vãos
nos corpos a poeira
nos gruda aos poros
misturam a sujeira
e suam os anseios
improvisamos os meios
nos melamos
lambuzamos
inexistem receios
espremido espaço côncavo
de pano estendido malhado
em balanço leve e esticado
cheiro do cabelo ainda molhado
que brinca em meu rosto, bagunçado
aguça o prazer do tato
atrito suave e cadenciado
entre meu peito e tua blusa fina
apoia a cabeça no pulso dobrado
e deixa fugir o sorriso de menina
lá, fora deste covil embarcado
cantam as folhas em ritmo brando
pulam em galhos as aves dançando
mal sabe toda a natureza
que em tua sola de pé
meus dedos regem em passeio
e compõem toda a beleza
desta sinfonia que é
o mundo com ti sem receio
"She´s often inclined to borrow somebody´s dreams ´till tomorrow"
enquanto
o rock´n roll dos vinte
já me passou
e os hinos dos setenta
todavia me quedan lejos
balanço esta sonata de vida
em ritmo de ausência
que me faz
e batida de tristeza
que me traz
e não será outra busca
que me completará
nem mesmo outro hálito
que aliviará
o que será, que será?
engano a dor com variações
mergulho nos escritos
de outros mil corações
tento o consolo em outros
cantantes e canções
mas não é o vinho
nem o ressoar
que me vai pôr calmo
ou aliviar
O que não tem descanso,
nem nunca terá
O que não tem cansaço,
nem nunca terá
O que não tem limite
Rosalinda, minh´alegria
ô menina, se te pego nesse chão
murmúrio doce desceria
esparramando de paixão
E aos teus olhos permaneceria
por cem anos de ilusão
em teu ventre depositaria
de minha língua, o úmido calor
provaria do odor
sentiria do sabor
e em mútuo torpor
teu flanco deitaria, teu cabelo voaria
embriagada de amor!
Da vibração penetrante
na atmosfera ressonante
treme minh´alma
em seu embolar
em cada dedilhar
em tua carne firme
treme meu olhar
prende-me em teu filme
que vítima de teu crime
possa me tornar
e me embriagar
deste vinho que te cobre
treme meu ar
na madeira os sapatos
criam engasgos e estalos
dolorosos e culpados
do suor que me percorre
somente para então
resfriar-me os sentidos
com os braços movidos
ora esguios
ora contidos
e as mãos que os guiam
também regem meus suspiros
treme meu pensar
e então tuas formas
são lúbricas chamas
que vacilam ao palmear
és essência da paixão
rubra fascinação
treme meu amar
Crédito da imagem: http://philgamer.files.wordpress.com/2009/03/dark_alley.jpg
Enquanto os mostros enfumaçados,
enormes e pesados
tomam a cidade com seus rosnares
em uma entrada de ruela
entre lixo, asfalto e grades
percorrem vultos interessados
vagabundos, putas e viciados
Não me pergunte...
Não sei como isto foi acontecer
Todas minhas seguranças tornaram-se foscas
como a luz destas calçadas
brisa inebriante das madrugadas
meu sentimento de nada conta
a solidão dos passos faz divagar
e esta luz neon aponta
para a entrada do próximo bar
Não sei como isso foi acontecer...
Não me pergunte
E todo o álcool não basta, todavia
néctar que alivia e angustia
que junto da vida se esvazia
companheira única e indissociável
a garrafa permanece omissa
e a dor se torna menos palpável
Por Favor, não me pergunte
Não sei como tudo isso foi acontecer
pureza por nome
como pura podes não ser?
eternizas a ignorância das carnes
quero no
reflexo de teus óculos
me encontrar
e na umidade de teus lábios
sentir a vida
me tomar
me tome,
me beba e me mostre
me encare por todo o tempo
me desafie
e me beba
tolo eu, se te tomo por submissa
se me penso superior, por mirar por cima
me tomas a vida
e me mantém como queres
com olhar que ora sugere
ora reflete
o vinho das uvas me derrete o paladar
seus gemidos me derretem os ouvidos
teus olhos blindados me derretem a visão
teus mamilos me derretem o tato
teu suor me derrete o olfato
tua saliva me derrete a alma
derrete-me
depois toma-me
me absorva com a lingua e com os olhos
por baixo e por cima,
por fora e por dentro
me absorva
me consuma e me destrúa
me encare por todo o tempo
Que os dentes fiquem roxos, isto é certo
mas que caia o desejo
o eterno descontentamento,
ah, isso é trapaça do estômago
não o creia pois,
cedo ou tarde sucumbe à vontade do coração
Temos por livro que
a carne é fraca e
a alma é eterna
mas que espírito, me diga,
já nunca se ajoelha
cola o queixo no peito e pede misericórdia
quando diante das exigências da paixão
quero é dizer do que não sei!
para que falar o que conheço
se disso já me cansei?
contar de minha experiência
é dar eco ao comum
e além de minha ciência
é onde está o brilho
vou cambiar esta eloquência
dizer do quente, frio!
do torto, reto!
do longe, perto!
dize-me que não
mais te amo
só por que não
mais te escrevo
pois, não vês,
o que caiu em esquecimento
foi a redundância das palavras
e não o sentimento?
já não me interessa o absorvido
idéia aceita ou livro lido
pretendo assistir o invisível
pegar a dica no ouvido
e declamar o impossível!