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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Blasfêmia

Noturnas horas lentas e entorpecentes.
No balcão está sentado, mudo e suado, figura imaginada diretamente de um filme western antigo, tão preto e branco quanto, mesmo à luz fraca e amarela do boteco. Capote, barba cerrada. Mata outro trago.
Entra em assobios, tristes, mas assobios, outra imagem, já esta parece vinda de uma boemia sambista qualquer, aprumado em blusa cinza claro e calça escura. Senta-se em uma mesa. Silva, razoavelmente, uma outra melodia.
- Por Deus, poderia parar com esta merda?
O cavalheiro, sem levantar-se de seu recente aposento, devolve:
- Por mim, continuo.
Calam-se alguns segundos. O primeiro ainda debruçado sobre a madeira plana junto ao copo, sem virar-se. O segundo poucos metros atrás, sentado confortavelmente e encarando o atrevido ranzinza.
- Muito bem, pensa que é Deus. Tenha ao menos piedade, com esse calor infernal, de deixar-me em paz e calar esta aporrinhação.
- E não deveria estar acostumado, um Diabo como você?
Deus aborreceu-se, desistiu de acender o cigarro e saiu. Ao menos serviu para que cessassem as más inerpretadas melodias.
O Diabo agradeceu a Deus (quanta ironia!) e matou outro trago.





domingo, 22 de agosto de 2010

Tema

Vazio,
encoberto pelo soar do despertador seis horas da manhã,
negligenciado pela exaustão física dez horas da noite,
disfarçado pelos artificiais objetivos de toda a hora.

Maldita essa vertigem que ataca se me entrego à segurança da televisão num domingo. Desgraçado pela bolha de ar gelado que me parece espremer o coração em toda falsa hora vadia que, por inevitável vínculo às seguintes, não concede a liberdade prometida.

Má sorte de sentir.
Este sentir que naturalmente demanda por vinhos e mulheres em esperança de preencher o tema deste momento. Ah, a quem quero enganar? O tema é constante.
Tolo sentir, queres enganar o tema, mas na falta do sexo e do álcool te engano antes pelas letras dos outros, e raras vezes pelas minhas.

Se não me faltam os escapes efêmeros, me lanço a ti apenas para lembrar que a chama mais forte prenuncia a brevidade do fogo. Cilada viciada porém garantida por tuas influências.

Sentir, tu és o tema. És vazio.





sábado, 12 de junho de 2010

12/06

"Mas... ânimo! Ainda seremos grandes amigos!"
O que doeu mais, vagas palavras de consolo inútil ou os braços rasgados pela ventania gelada que se fez logo após, em um ponto de ônibus qualquer às 2:30 da manhã?
Pouco importa, pois as dores são parceiras na moléstia alheia. E mais, não haveria momento mais propício para o encontro e união destas que o dia dos namorados.
Não, não vou chamar de ironia de ninguém, destino, vida, juventude... quero que estes malditos metidos ao sarcasmo se fodam. A ironia é da minha dor, unicamente!
Portanto, muda-se a companhia no dia dos companheiros. Muda-se também as influências. Se antes diria:

"O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar."

Declamo agora:

"Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja."

Bem verdade. Uma se foi mas deixou a outra como presente de dia dos amantes.
Não há raiva, apenas mudei de Menina para Dor.
Troquei também o Fernando pelo Augusto.

Já fiz poesias à Menina, bobas e clichês.
Minha musa a ser beijada por versos agora é outra. Não prometo que não sejam também bobas e clichês, mas prometo a dedicatória.

Feliz dia do amor, Dor!



segunda-feira, 24 de maio de 2010

Novavilense



Domingo era dia de jogo do Novavilense.
Despertava às oito com um beijo da esposa, uma lambida do cachorro e a cabeça suada.
Tomava o seu café forte com pão de sal e manteiga, enquanto as crianças (eram duas) davam as últimas espreguiçadas na cama.
Iam à piscina: bóias, bolas, sol, sombras, jornal, suor...
Almoçavam com os pais dela, contavam as últimas façanhas dos filhos na escola, tinham pavê de sobremesa.
Voltava para casa, os pequenos cochilavam, a esposa cochilava e ele mal se continha a esperar as dezesseis horas. Enquanto isso, suava a cabeça.
Quinze e quinze já se punha de vermelho e branco (cores do Novavilense), sacava a primeira garrafa de cerveja do refrigerador e sentava no sofá.
Dez para as desesseis levantava, preparava a panela de pipoca e sacava outra cerveja para refrescar o suor.
Iniciava a partida com as esperanças e sonhos de quem vê o amor de sua vida pela primeira vez. 
Xingava, suava, pulava, resmungava, sentava e suava mais.
Terminava a partida com a raiva e frustração de quem já viu o amor de sua vida por tempo demais.
Sentava na varanda colorida pelos últimos raios do dia. Ouvia os pássaros.

Aconteceu que, neste domingo, uma sequência inédita de pequenos movimentos e observações se sucedeu. Quando levantava a garrafa para levar à boca, parou e segurou-a fixa no ar. Estático, reparava em uma gota que pendia ao fundo, lado de fora da garrafa. Os pássaros murmuravam enquanto a luz do entardecer refratava na gota, que vacilava em seu curto instante de existência. Talvez se passassem dez ou até vinte segundos, mas dentro daquela cabeça suada de domingo não havia progressão temporal, apenas uma imagem em quadro.

E assim como o excesso de sal estraga o feijão e muito cantar compromete a canção, este turbilhão estático de idéias e sentimentos foi demais para a cabeça suada. Enxugou a gota, exugou a testa e tratou de parar de pensar mais do que deveria.
Afinal já se fazia noite, em poucas horas deveria dormir e descansar. Amanhã era segunda-feira. Não era dia do jogo, era dia de trabalho.
Novavilense agora, só semana que vem.



quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ao frio

Da brisa que congela, foge a palavra. 
As gravidades do clima ameaçam-lhe o movimento, transgridem-lhe o pulsar.
Para a rima violada, resta o conformismo de morrer em hipotermia.

Mas tu, que és fogueira da inspiração, promete abrigo ao verbo.
Adjetivo e advérbio, ao fio da noite ou ao estalar do amanhecer, bebem do café quente de tuas idéias e em tua alma se esquentam.

Belo este fogo de Prometeu que tens na ponta dos dedos!




Dedicado a uma já iniciada amizade.



sexta-feira, 14 de maio de 2010

Tarde

- Então, é isso?
- Sim senhor, apenas que na próxima vez o senhor controle o barulho.

Ele subia os três lances de escada até seu apartamento. Não havia razão para se aborrecer com o porteiro, afinal só estava trabalhando, anunciando as últimas reclamações dos vizinhos do primeiro andar. Não se importava com esse tipo de aporrinhação e, passadas algumas cervejas, esqueceria novamente os moradores rabugentos.
Parou em frente à porta, catou as chaves no bolso, enfiou-as e forçou a fechadura.
O lugar era do tamanho ideal para um sujeito solteiro de vinte e tantos anos. Da entrada, viam-se os 4 ou 5 metros de extensão do cômodo principal, ao final a janela imensa escancarada, deixando passar toda vida que o dia ainda preserva às cinco e meia da tarde.
De todo o espetáculo de reflexão da luz nas paredes e no chão, da brisa suave que refrescava o ambiente e do impressionante silêncio que se fazia presente, nada guardou a atenção do rapaz por mais de cinco segundos.

- Enfim...

Colocou algumas cervejas no congelador, alongou as costas, fechou a porta e se jogou no sofá. Ligou o aparelho de som, Mile Davis. A bebida demoraria a gelar e, talvez por misericórdia da existência, era tarde de sexta-feira.




sábado, 8 de maio de 2010

Conveniência

Já te ocorreu, meu caro, de possuir a mais límpida pureza e desejar a sujeira? Quando digo de pureza, digo da intenção clara, do ímpeto moldado e simples. Por algum acaso já te ocorreu esta armadilha da vida e juventude?
Sim, pois a juventude não passa de trama da vida. Nada sutil, muito pelo averso, juventude é coisa arrebatadora. É ardilosa e sem culpa. Mais que tudo, é maldosa e egoísta.
Já te custaram, amigo, horas noturnas e soturnas de pálpebras cerradas em vão? Horas estas que lubridiam e abandonam à própria sorte da consciência. Trazem elas a verdade ou o engano? Meio, fim ou abismo?
Não bastam a pontuação nem as exclamações. Tampouco bastam as palmas flamencas. Não basta a coerência para explicar-te, tens que ter sentido e doído.
A pureza não traz consigo apenas a alegria e o "felizes-para-sempre". Ela carrega a raiva de mil anos de opressão e pretende despejar tudo em um buraco, tu!
Sou sim, hipócrita. És tu também. Mas por graça de deus, ou da cerveja, os fatos não reprimem os desabafos. Somos sujos por natureza e puros por conveniência.




terça-feira, 4 de agosto de 2009

Conto curto

    Tem-se, em observação, uma rua quase deserta senão por um casaco marrom e par de jeans que navega por ela. Mente-se, seguindo o rapaz surge também, de pelugem marrom quase descolorida, quatro patas, três compassadas e uma manca.
    A distância entre os dois diminuía à proporção da desconfiança e, enquanto o homem diluía suas angústias em solvente natural que é o relento de cidade, o cão parecia querer apenas outro ser que lhe acompanhasse por alguns instantes. Talvez fosse fome e frio, por parte do animal, e embriaguez e vazio, por parte do homem. A verdade é que o último não podia sentir-se aliviado. Não que se arrependesse, mas recebia a áspera resposta do nada. Pois bem, era jovem e imortal, haviam os vinhos, o sexo e as melodias, enquanto sua alma era ampla suficiente para sobressair aos erros.
    O chiado dos sapatos furados compunha melancólica harmonia pincelada pelo gelado silvo do vento e este tema guiava a então formada amizade por algumas ruelas de Santa Cruz. Mesmo que efêmera, a parceria era de cumplicidade suficiente para abrandar a solidão das calçadas sujas às três da madrugada.
    Com o cheiro de uma mulher no pensamento, o de outra no braço e o do cachorro ao lado, ele seguia sem pressa na companhia do miserável camarada. Há algo de intrigante nos aromas. Não tão direto quanto uma imagem nem tão temporizados como uma música, o olfato pode ofertar as mais amplas e completas sensações.
Passam-se uns vinte minutos e exatamente três quadras, o necessário para dispersar a amargura e para que as pernas já reclamassem o cansaço. Em despedida, o comparsa se aproximou, cheirou e lambeu-lhe a mão.
    Há meia hora atrás, era a umidade de boca feminina que lhe tocava a pele. Trocou olhos azuis, lascivos e maqueados pelo olhar faminto e pidão de um vira-latas. Nunca a idéia de que 'o tempo passa' lhe parecera tão gratificante.