sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Rede

espremido espaço côncavo
de pano estendido malhado
em balanço leve e esticado
cheiro do cabelo ainda molhado
que brinca em meu rosto, bagunçado
aguça o prazer do tato
atrito suave e cadenciado
entre meu peito e tua blusa fina
apoia a cabeça no pulso dobrado
e deixa fugir o sorriso de menina

lá, fora deste covil embarcado
cantam as folhas em ritmo brando
pulam em galhos as aves dançando
mal sabe toda a natureza
que em tua sola de pé
meus dedos regem em passeio
e compõem toda a beleza
desta sinfonia que é
o mundo com ti sem receio



"She´s often inclined to borrow somebody´s dreams ´till tomorrow"


domingo, 22 de agosto de 2010

Tema

Vazio,
encoberto pelo soar do despertador seis horas da manhã,
negligenciado pela exaustão física dez horas da noite,
disfarçado pelos artificiais objetivos de toda a hora.

Maldita essa vertigem que ataca se me entrego à segurança da televisão num domingo. Desgraçado pela bolha de ar gelado que me parece espremer o coração em toda falsa hora vadia que, por inevitável vínculo às seguintes, não concede a liberdade prometida.

Má sorte de sentir.
Este sentir que naturalmente demanda por vinhos e mulheres em esperança de preencher o tema deste momento. Ah, a quem quero enganar? O tema é constante.
Tolo sentir, queres enganar o tema, mas na falta do sexo e do álcool te engano antes pelas letras dos outros, e raras vezes pelas minhas.

Se não me faltam os escapes efêmeros, me lanço a ti apenas para lembrar que a chama mais forte prenuncia a brevidade do fogo. Cilada viciada porém garantida por tuas influências.

Sentir, tu és o tema. És vazio.





sábado, 19 de junho de 2010

enquanto
o rock´n roll dos vinte
já me passou
e os hinos dos setenta
todavia me quedan lejos
balanço esta sonata de vida
em ritmo de ausência
que me faz
e batida de tristeza
que me traz
e não será outra busca
que me completará
nem mesmo outro hálito
que aliviará

o que será, que será?

engano a dor com variações
mergulho nos escritos
de outros mil corações
tento o consolo em outros
cantantes e canções
mas não é o vinho
nem o ressoar
que me vai pôr calmo
ou aliviar
O que não tem descanso,
nem nunca terá
O que não tem cansaço,
nem nunca terá
O que não tem limite

sábado, 12 de junho de 2010

12/06

"Mas... ânimo! Ainda seremos grandes amigos!"
O que doeu mais, vagas palavras de consolo inútil ou os braços rasgados pela ventania gelada que se fez logo após, em um ponto de ônibus qualquer às 2:30 da manhã?
Pouco importa, pois as dores são parceiras na moléstia alheia. E mais, não haveria momento mais propício para o encontro e união destas que o dia dos namorados.
Não, não vou chamar de ironia de ninguém, destino, vida, juventude... quero que estes malditos metidos ao sarcasmo se fodam. A ironia é da minha dor, unicamente!
Portanto, muda-se a companhia no dia dos companheiros. Muda-se também as influências. Se antes diria:

"O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar."

Declamo agora:

"Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja."

Bem verdade. Uma se foi mas deixou a outra como presente de dia dos amantes.
Não há raiva, apenas mudei de Menina para Dor.
Troquei também o Fernando pelo Augusto.

Já fiz poesias à Menina, bobas e clichês.
Minha musa a ser beijada por versos agora é outra. Não prometo que não sejam também bobas e clichês, mas prometo a dedicatória.

Feliz dia do amor, Dor!



sábado, 5 de junho de 2010

Repentina

Rosalinda, minh´alegria
ô menina, se te pego nesse chão
murmúrio doce desceria
esparramando de paixão
E aos teus olhos permaneceria
por cem anos de ilusão
em teu ventre depositaria
de minha língua, o úmido calor
provaria do odor
sentiria do sabor
e em mútuo torpor
teu flanco deitaria, teu cabelo voaria
embriagada de amor!




segunda-feira, 24 de maio de 2010

Novavilense



Domingo era dia de jogo do Novavilense.
Despertava às oito com um beijo da esposa, uma lambida do cachorro e a cabeça suada.
Tomava o seu café forte com pão de sal e manteiga, enquanto as crianças (eram duas) davam as últimas espreguiçadas na cama.
Iam à piscina: bóias, bolas, sol, sombras, jornal, suor...
Almoçavam com os pais dela, contavam as últimas façanhas dos filhos na escola, tinham pavê de sobremesa.
Voltava para casa, os pequenos cochilavam, a esposa cochilava e ele mal se continha a esperar as dezesseis horas. Enquanto isso, suava a cabeça.
Quinze e quinze já se punha de vermelho e branco (cores do Novavilense), sacava a primeira garrafa de cerveja do refrigerador e sentava no sofá.
Dez para as desesseis levantava, preparava a panela de pipoca e sacava outra cerveja para refrescar o suor.
Iniciava a partida com as esperanças e sonhos de quem vê o amor de sua vida pela primeira vez. 
Xingava, suava, pulava, resmungava, sentava e suava mais.
Terminava a partida com a raiva e frustração de quem já viu o amor de sua vida por tempo demais.
Sentava na varanda colorida pelos últimos raios do dia. Ouvia os pássaros.

Aconteceu que, neste domingo, uma sequência inédita de pequenos movimentos e observações se sucedeu. Quando levantava a garrafa para levar à boca, parou e segurou-a fixa no ar. Estático, reparava em uma gota que pendia ao fundo, lado de fora da garrafa. Os pássaros murmuravam enquanto a luz do entardecer refratava na gota, que vacilava em seu curto instante de existência. Talvez se passassem dez ou até vinte segundos, mas dentro daquela cabeça suada de domingo não havia progressão temporal, apenas uma imagem em quadro.

E assim como o excesso de sal estraga o feijão e muito cantar compromete a canção, este turbilhão estático de idéias e sentimentos foi demais para a cabeça suada. Enxugou a gota, exugou a testa e tratou de parar de pensar mais do que deveria.
Afinal já se fazia noite, em poucas horas deveria dormir e descansar. Amanhã era segunda-feira. Não era dia do jogo, era dia de trabalho.
Novavilense agora, só semana que vem.



quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ao frio

Da brisa que congela, foge a palavra. 
As gravidades do clima ameaçam-lhe o movimento, transgridem-lhe o pulsar.
Para a rima violada, resta o conformismo de morrer em hipotermia.

Mas tu, que és fogueira da inspiração, promete abrigo ao verbo.
Adjetivo e advérbio, ao fio da noite ou ao estalar do amanhecer, bebem do café quente de tuas idéias e em tua alma se esquentam.

Belo este fogo de Prometeu que tens na ponta dos dedos!




Dedicado a uma já iniciada amizade.