sábado, 12 de junho de 2010

12/06

"Mas... ânimo! Ainda seremos grandes amigos!"
O que doeu mais, vagas palavras de consolo inútil ou os braços rasgados pela ventania gelada que se fez logo após, em um ponto de ônibus qualquer às 2:30 da manhã?
Pouco importa, pois as dores são parceiras na moléstia alheia. E mais, não haveria momento mais propício para o encontro e união destas que o dia dos namorados.
Não, não vou chamar de ironia de ninguém, destino, vida, juventude... quero que estes malditos metidos ao sarcasmo se fodam. A ironia é da minha dor, unicamente!
Portanto, muda-se a companhia no dia dos companheiros. Muda-se também as influências. Se antes diria:

"O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar."

Declamo agora:

"Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja."

Bem verdade. Uma se foi mas deixou a outra como presente de dia dos amantes.
Não há raiva, apenas mudei de Menina para Dor.
Troquei também o Fernando pelo Augusto.

Já fiz poesias à Menina, bobas e clichês.
Minha musa a ser beijada por versos agora é outra. Não prometo que não sejam também bobas e clichês, mas prometo a dedicatória.

Feliz dia do amor, Dor!



sábado, 5 de junho de 2010

Repentina

Rosalinda, minh´alegria
ô menina, se te pego nesse chão
murmúrio doce desceria
esparramando de paixão
E aos teus olhos permaneceria
por cem anos de ilusão
em teu ventre depositaria
de minha língua, o úmido calor
provaria do odor
sentiria do sabor
e em mútuo torpor
teu flanco deitaria, teu cabelo voaria
embriagada de amor!




segunda-feira, 24 de maio de 2010

Novavilense



Domingo era dia de jogo do Novavilense.
Despertava às oito com um beijo da esposa, uma lambida do cachorro e a cabeça suada.
Tomava o seu café forte com pão de sal e manteiga, enquanto as crianças (eram duas) davam as últimas espreguiçadas na cama.
Iam à piscina: bóias, bolas, sol, sombras, jornal, suor...
Almoçavam com os pais dela, contavam as últimas façanhas dos filhos na escola, tinham pavê de sobremesa.
Voltava para casa, os pequenos cochilavam, a esposa cochilava e ele mal se continha a esperar as dezesseis horas. Enquanto isso, suava a cabeça.
Quinze e quinze já se punha de vermelho e branco (cores do Novavilense), sacava a primeira garrafa de cerveja do refrigerador e sentava no sofá.
Dez para as desesseis levantava, preparava a panela de pipoca e sacava outra cerveja para refrescar o suor.
Iniciava a partida com as esperanças e sonhos de quem vê o amor de sua vida pela primeira vez. 
Xingava, suava, pulava, resmungava, sentava e suava mais.
Terminava a partida com a raiva e frustração de quem já viu o amor de sua vida por tempo demais.
Sentava na varanda colorida pelos últimos raios do dia. Ouvia os pássaros.

Aconteceu que, neste domingo, uma sequência inédita de pequenos movimentos e observações se sucedeu. Quando levantava a garrafa para levar à boca, parou e segurou-a fixa no ar. Estático, reparava em uma gota que pendia ao fundo, lado de fora da garrafa. Os pássaros murmuravam enquanto a luz do entardecer refratava na gota, que vacilava em seu curto instante de existência. Talvez se passassem dez ou até vinte segundos, mas dentro daquela cabeça suada de domingo não havia progressão temporal, apenas uma imagem em quadro.

E assim como o excesso de sal estraga o feijão e muito cantar compromete a canção, este turbilhão estático de idéias e sentimentos foi demais para a cabeça suada. Enxugou a gota, exugou a testa e tratou de parar de pensar mais do que deveria.
Afinal já se fazia noite, em poucas horas deveria dormir e descansar. Amanhã era segunda-feira. Não era dia do jogo, era dia de trabalho.
Novavilense agora, só semana que vem.



quinta-feira, 20 de maio de 2010

Ao frio

Da brisa que congela, foge a palavra. 
As gravidades do clima ameaçam-lhe o movimento, transgridem-lhe o pulsar.
Para a rima violada, resta o conformismo de morrer em hipotermia.

Mas tu, que és fogueira da inspiração, promete abrigo ao verbo.
Adjetivo e advérbio, ao fio da noite ou ao estalar do amanhecer, bebem do café quente de tuas idéias e em tua alma se esquentam.

Belo este fogo de Prometeu que tens na ponta dos dedos!




Dedicado a uma já iniciada amizade.



sexta-feira, 14 de maio de 2010

Tarde

- Então, é isso?
- Sim senhor, apenas que na próxima vez o senhor controle o barulho.

Ele subia os três lances de escada até seu apartamento. Não havia razão para se aborrecer com o porteiro, afinal só estava trabalhando, anunciando as últimas reclamações dos vizinhos do primeiro andar. Não se importava com esse tipo de aporrinhação e, passadas algumas cervejas, esqueceria novamente os moradores rabugentos.
Parou em frente à porta, catou as chaves no bolso, enfiou-as e forçou a fechadura.
O lugar era do tamanho ideal para um sujeito solteiro de vinte e tantos anos. Da entrada, viam-se os 4 ou 5 metros de extensão do cômodo principal, ao final a janela imensa escancarada, deixando passar toda vida que o dia ainda preserva às cinco e meia da tarde.
De todo o espetáculo de reflexão da luz nas paredes e no chão, da brisa suave que refrescava o ambiente e do impressionante silêncio que se fazia presente, nada guardou a atenção do rapaz por mais de cinco segundos.

- Enfim...

Colocou algumas cervejas no congelador, alongou as costas, fechou a porta e se jogou no sofá. Ligou o aparelho de som, Mile Davis. A bebida demoraria a gelar e, talvez por misericórdia da existência, era tarde de sexta-feira.




terça-feira, 11 de maio de 2010

Flamenca

                      Pintura de Fabian Perez


Da vibração penetrante
na atmosfera ressonante
treme minh´alma
em seu embolar
em cada dedilhar
em tua carne firme
treme meu olhar
prende-me em teu filme
que vítima de teu crime
possa me tornar
e me embriagar
deste vinho que te cobre
treme meu ar
na madeira os sapatos
criam engasgos e estalos
dolorosos e culpados
do suor que me percorre
somente para então
resfriar-me os sentidos
com os braços movidos
ora esguios
ora contidos
e as mãos que os guiam
também regem meus suspiros
treme meu pensar
e então tuas formas
são lúbricas chamas
que vacilam ao palmear
és essência da paixão
rubra fascinação
treme meu amar


domingo, 9 de maio de 2010

Your Latest Trick - Inspiração

       Crédito da imagem: http://philgamer.files.wordpress.com/2009/03/dark_alley.jpg



Enquanto os mostros enfumaçados,
enormes e pesados
tomam a cidade com seus rosnares
em uma entrada de ruela
entre lixo, asfalto e grades
percorrem vultos interessados
vagabundos, putas e viciados

Não me pergunte...
Não sei como isto foi acontecer

Todas minhas seguranças tornaram-se foscas
como a luz destas calçadas
brisa inebriante das madrugadas
meu sentimento de nada conta
a solidão dos passos faz divagar
e esta luz neon aponta
para a entrada do próximo bar

Não sei como isso foi acontecer...
Não me pergunte

E todo o álcool não basta, todavia
néctar que alivia e angustia
que junto da vida se esvazia
companheira única e indissociável
a garrafa permanece omissa
e a dor se torna menos palpável

Por Favor, não me pergunte
Não sei como tudo isso foi acontecer